padrão de gosto

Diz-se daquilo que tem agradado, de um modo geral, às pessoas de diferentes épocas e lugares e que serve de critério para justificar os nossos juízos de gosto. Para Hume o padrão de gosto é algo que pode ser empiricamente observado. Como subjectivista, Hume defende que os juízos estéticos são juízos de gosto. Mas defende também que daí não se segue que os gostos são todos iguais. Os gostos discutem-se na medida em que existe um critério geral de justificação: o padrão de gosto. O padrão de gosto surge da nossa disposição para reagir com agrado ou desagrado a certas características dos objectos. É por isso que, para qualquer pessoa informada e com um gosto refinado, isto é, conhecedora do padrão de gosto, se torna disparatado afirmar que a música do Quim Barreiros é melhor do que a de Beethoven. Ver também subjectivismo estético e teoria do gosto. AA

panteísmo

A concepção de Deus, segundo a qual todas as coisas que existem são partes ou manifestações de uma única realidade divina. Assim, Deus e o mundo são uma e a mesma coisa, pelo que Deus é imanente e não transcendente. A ideia de um Deus criador e providencial é afastada pelo panteísta, pelo que este se afasta, simultaneamente, das concepções monoteístas e politeístas; distingue-se também do teísmo, do deísmo e do ateísmo, embora alguns filósofos teístas o considerem uma forma disfarçada de ateísmo. O panteísmo costuma ser associado aos estóicos (ver estoicismo), mas os seus mais destacados defensores foram Espinosa (1632-77) e Hegel. AA

paradigma

1. Um modelo de algo.

2. Em filosofia da ciência é uma noção introduzida por Thomas Kuhn e que desempenha um papel central na maneira como esse filósofo caracteriza a actividade científica. O termo nem sempre é usado por Kuhn da mesma maneira. Mas há dois sentidos principais e complementares: por um lado refere a teia de crenças, valores, processos, técnicas e instrumentos partilhados pelos membros da mesma comunidade científica; por outro, designa um tipo de resultado particular que se torna exemplar e, por isso, se constitui como modelo na base do qual os cientistas acabam por trabalhar. A "Astronomia Ptolomaica" e a "Astronomia Copernicana" constituem diferentes paradigmas, assim como a "Óptica Corpuscular" e a "Óptica Ondulatória". AA

paradoxo

1. Estamos perante um paradoxo quando um argumento aparentemente sólido conduz a uma afirmação aparentemente falsa ou contraditória. Porque a afirmação é falsa ou contraditória, somos levados a recusá-la; mas, por outro lado, não é fácil ver como se pode fazê-lo, dado que há um argumento aparentemente sólido a seu favor. Por exemplo, a afirmação "Esta afirmação é falsa" é paradoxal porque se for verdadeira, é falsa, e se for falsa, é verdadeira. Mas isto colide com a ideia de que não pode haver frases declarativas com valor assertivo que não sejam verdadeiras nem falsas. Nem sempre é fácil ver que argumento é colocado em causa por um paradoxo. Resolve-se um paradoxo mostrando que o argumento em que se baseia não é sólido: porque é inválido ou porque depende de premissas falsas. Muitas vezes, a descoberta das premissas falsas envolvidas num paradoxo está na origem de descobertas fundamentais na área teórica em causa. Mais raramente, resolve-se um paradoxo afirmando que a conclusão que parecia falsa ou contraditória não o é. Não se deve confundir paradoxo com falácia.

2. Em termos populares, chama-se paradoxo apenas a qualquer afirmação contraditória. DM

parcimónia, princípio da

Também conhecido como navalha de Ockham, em referência ao filósofo nominalista medieval Guilherme de Ockham (c. 1285-1349), este princípio afirma que não devemos postular a existência de entidades sem necessidade. É comum usar este princípio para decidir entre duas teorias concorrentes. Por exemplo, se uma teoria explicar o movimento dos átomos através de forças de atracção e repulsão e outra apelar a essas mesmas forças mais um diabo responsável pela deslocação desses átomos, então a primeira teoria é melhor. CT

parecença familiar

Certas coisas exemplificam um mesmo conceito, porque partilham certas características, apesar de estas poderem ser diferentes de caso para caso. São tais semelhanças que permitem estabelecer uma relação de familiaridade entre coisas que podem até ser muito diferentes entre si. Tal como um filho pode ter os olhos parecidos com os da mãe, o nariz com o do avô e a boca com a do bisavô, mas não haver qualquer característica comum a todos. Esta ideia deve-se a Wittgenstein, que deu o exemplo do conceito de jogo, e é utilizada na filosofia da arte pelo filósofo Morris Weitz (1916-87). Segundo Weitz, o conceito de arte não pode ser definido, embora possamos reconhecer como arte obras completamente inovadoras, o que acontece devido a haver parecenças familiares entre estas e alguma das obras anteriores. AA

particular

Em metafísica, um particular é aquilo que é único e irrepetível, como Jorge Sampaio, Coimbra e a minha bicicleta. Os particulares distinguem-se dos universais, como a brancura, a circularidade e a sabedoria, que são propriedades exemplificadas por particulares numericamente distintos, isto é, por várias coisas. AA

Pascal, aposta de

Ver aposta de Pascal.

pensamento caprichoso

Falácia com a seguinte forma: "Era bom que fosse verdade que P; logo, P". Por exemplo: era bom que me saísse a lotaria; logo, vai-me sair a lotaria. Se em contextos práticos a falácia é imediatamente visível, em contextos filosóficos é menos evidente: "Se Deus não existisse, a vida não faria sentido; mas seria horrível que a vida não fizesse sentido; logo, Deus existe". DM

per accidens

Expressão latina: "por acidente". Usa-se sobretudo na lógica aristotélica para referir os seguintes padrões de inferência, a que se chamam "conversão per accidens": "Todo o A é B; logo, algum B é A"; e "Nenhum A é B; logo, algum B não é A". As duas inferências só são válidas pressupondo que há objectos da classe A. DM

per se

Expressão latina que significa "por si mesmo". Alguns teólogos afirmam que Deus existe per se. AA

percepção

A percepção é o modo como tomamos consciência dos objectos, em especial daquilo que nos é dado pelos sentidos. A pergunta que muitos filósofos colocam acerca da percepção é a seguinte: será que o facto de percepcionarmos objectos é suficiente para justificar a existência desses objectos fora da nossa consciência? A distinção entre aparência e realidade parece indicar que há diferença entre aquilo que as coisas são e a maneira como tomamos consciência delas, isto é, a maneira como as percepcionamos. O modo como funciona a percepção dá lugar a grandes disputas filosóficas e é um tema central nas discussões acerca da natureza do conhecimento. Há três grandes teorias da percepção, com diferentes implicações em termos epistemológicos: o realismo directo, o realismo representativo e o idealismo. Ver também realismo crítico e realismo ingénuo. AA

pergunta complexa, falácia da

Ver falácia da pergunta complexa.

petição de princípio

Ver falácia da circularidade.

petitio principii

Expressão latina: petição de princípio. Ver falácia da circularidade.

phronêsis

Termo grego que refere a prudência, isto é, o conhecimento prático e moral. Aristóteles usou o termo para referir o tipo de raciocínio recto em matérias éticas que é de esperar de uma pessoa virtuosa. DM

physis

Termo grego que significa "natureza física" e também "ordem natural". Na Antiguidade Grega opunha-se a physis ao nomos (leis ou costumes humanos) e debatia-se se as leis humanas (nomeadamente éticas e políticas) estavam inscritas na natureza das coisas, ou se eram meras convenções. Ver relativismo e ética. DM

Platão (427-347 a. C.)

Platão

Filósofo grego que, juntamente com Sócrates, seu mestre, e Aristóteles, seu discípulo, é uma das figuras mais importantes da filosofia ocidental. Nasceu em Atenas, numa família aristocrática, e, como era comum na época e nos jovens da sua classe, ter-se-ia dedicado à política activa não o tivesse dela afastado, primeiro, o governo dos Trinta Tiranos e, depois, a execução de Sócrates, em 399. Apesar disso, fez várias viagens à Sicília com o objectivo de influenciar Dionísio II, tirano de Siracusa, e a sua filosofia está profundamente marcada por preocupações de carácter ético (ver ética) e político (ver filosofia política). Fundou em Atenas, em 387, uma escola dedicada ao ensino e à investigação, chamada Academia, onde ensinou até ao final da sua vida. Com excepção da Apologia de Sócrates (trad. 1993, INCM), todas as outras obras que escreveu são diálogos, que é comum distribuir por três períodos: juventude, maturidade e velhice. As obras do primeiro período tratam de conceitos morais específicos, como a piedade (Êutifron) ou a coragem (Laques) e nelas Sócrates é a figura central; as obras de maturidade expõem as suas principais teorias (teoria das ideias, da imortalidade e transmigração das almas); e nas obras de velhice, critica e revê algumas das teorias dos diálogos de maturidade. Defendeu que aquilo que várias acções justas têm em comum é o facto de participarem da ideia ou Forma de justiça. As Ideias são eternas e imutáveis, ao passo que as coisas sensíveis, que delas participam, são perecíveis e mutáveis. Existe uma hierarquia do ser, desde as imagens, artefactos (ver artefacto) e seres vivos, que constituem o mundo sensível e que são objecto de opinião, até às entidades matemáticas e às Ideias (de que a suprema é a Ideia incondicionada de Bem), que constituem o mundo inteligível e cujo conhecimento consiste na recordação (ver reminiscência) daquilo que a alma imortal contemplou aquando da sua existência separada do corpo. A justiça consiste em cada um desempenhar na cidade a função para a qual a sua natureza é mais adequada e a sociedade justa é aquela em que os cidadãos estão distribuídos por três classes, de acordo com a sua natureza: guardiões, que têm a seu cargo o governo; guerreiros, que protegem a cidade dos inimigos; e artesãos, a que pertencem a generalidade dos habitantes. As contribuições de Platão para vários domínios da filosofia são tão importantes que houve quem afirmasse que toda a filosofia posterior é apenas uma nota de rodapé à sua obra. Ver alegoria da caverna, dialéctica, inteligível, universais. AN

Hare, R. M., O Pensamento de Platão, (Lisboa: Presença, 1998).
Kenny, Anthony, História Concisa da Filosofia Ocidental, cap. 3 (Lisboa: Temas e Debates, 1999).
Koyré, Alexandre, Introdução à Leitura de Platão, (Lisboa: Presença, 18987).
Koyré, Alexandre, Galileu e Platão (Lisboa: Gradiva, 1986).
Magee, Brian, Os Grandes Filósofos, cap. 1 (Lisboa: Presença, 1989).
Platão, Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton (Lisboa: INCM, 1993).
Platão, Laques, (Lisboa: Edições 70, 1989).
Platão, Hípias Maior (Lisboa: Ed. 70, 2000).
Platão, Hípias Menor (Coimbra: INIC, 1990).
Platão, Cármides (Coimbra: INIC, 1988).
Platão, Lísis (Coimbra: INIC, 1990).
Platão, Íon (Lisboa: Editorial Inquérito, 1988).
Platão, Protágoras (Lisboa: Relógio D'Água, 1999).
Platão, Górgias (Lisboa: Edições 70, 1997).
Platão, Ménon, (Lisboa: Colibri, 1992).
Platão, Fédon (Coimbra: Minerva, 1998).
Platão, Crátilo, (Lisboa: Sá da Costa Ed., 1994).
Platão, Fedro, (Lisboa: Edições 70, 1997).
Platão, O Banquete, (Lisboa: Edições 70, 1991).
Platão, A República (Lisboa: Gulbenkian, 2001).
Platão, Parménides, (Lisboa: Instituto Piaget, 2001).

política, filosofia

Ver filosofia política.

Popper, Karl (1902-1994)

Karl Popper

Filósofo da ciência britânico (nascido na Áustria) cuja obra teve um grande impacto não só entre os filósofos, mas também entre os próprios cientistas. Em Viena partilhou com os fundadores do positivismo lógico um interesse profundo pelo conhecimento científico. O avanço do nazismo levou-o a emigrar para a Nova Zelândia e, mais tarde, para Inglaterra. A filosofia da ciência de Popper, conhecida por falsificacionismo, proporciona uma solução original para estes dois problemas: 1) O que distingue as teorias científicas das não científicas? 2) O que caracteriza o método científico? Popper responde a 1 defendendo que uma teoria é científica apenas se for falsificável, isto é, se for incompatível com algumas observações possíveis. Assim, quando uma teoria genuinamente científica é falsa, em princípio podemos revelar a sua falsidade recorrendo à observação. Já as teorias pseudo-científicas, como as que encontramos na astrologia, permanecem intactas perante quaisquer observações — mas por essa razão acabam por nada dizer sobre aquilo que observamos. Quanto a 2, Popper defendeu uma certa perspectiva do método científico. Defendeu, mais precisamente, que a melhor maneira de fazer ciência é elaborar imaginativamente teorias ou conjecturas ousadas, mas submetê-las depois a testes rigorosos concebidos para as refutar ou falsificar. As melhores teorias científicas são as que resistem a tais testes. Um aspecto importante da perspectiva da filosofia da ciência de Popper é a sua rejeição da indução. Outro aspecto a salientar é a sua crítica ao relativismo de filósofos como Kuhn: contra estes filósofos, Popper sustentou que a ciência nos proporciona conhecimento objectivo e uma imagem do mundo cada vez mais próxima da verdade (ver realismo). Popper destacou-se ainda na filosofia política pela sua firme oposição a todas as formas de totalitarismo, tendo criticado a este respeito as ideias de Platão, Hegel e Marx. Ver corroboração. PG

Losee, John, Uma Introdução Histórica à Filosofia da Ciência, Capítulo XI (Lisboa: Terramar, 1998).
Popper, Karl, A Lógica da Pesquisa Científica (São Paulo: Cultrix, 1974).
Popper, Karl, A Sociedade Aberta e os seus Inimigos, 2 vols. (Lisboa: Fragmentos, 1993).
Popper, Karl, Conjecturas e Refutações (Coimbra: Almedina, 2003).
Popper, Karl, O Mito do Contexto (Lisboa: Edições 70, 1999).

positivismo

Posição filosófica introduzida pelo filósofo e sociólogo francês Auguste Comte, segundo a qual o verdadeiro conhecimento advém dos dados dos sentidos. O positivismo é assim uma forma radical de empirismo. Comte defendeu que o pensamento humano se divide em três estádios evolutivos: o religioso, o metafísico e o científico. Os primeiros são estádios primitivos de aquisição de conhecimento, os quais serão eventualmente abolidos à medida que evoluímos. O positivismo de Comte é uma teoria descritiva e normativa do conhecimento humano. Descritiva, porque pretende dar conta do modo como o nosso conhecimento de facto evolui. Normativa, porque pretende fornecer regras acerca do modo como devemos alcançar o conhecimento. Esta posição deu origem a outras versões de positivismo, entre elas o positivismo lógico. CT

positivismo lógico

Também conhecido por neopositivismo e por empirismo lógico, este movimento filosófico começou nos anos vinte do séc. passado com o Círculo de Viena e foi muito influente nas décadas seguintes. Empenhados em promover uma maneira científica de fazer filosofia, os positivistas lógicos advogaram um empirismo radical hostil à metafísica, defenderam a unidade da ciência e propuseram a verificabilidade como critério de significado. No âmbito da metaética, a adopção deste critério motivou o emotivismo. Os positivistas lógicos desenvolveram estudos incontornáveis em áreas como a filosofia da linguagem e a filosofia da ciência. Alguns dos seus membros mais influentes foram Moritz Schlick (1882-1936), que fundou o movimento, Carnap, Otto Neurath (1882-1945) e Friedrich Waismann (1896-1959). Wittgenstein foi uma presença informal no grupo, Popper o seu mais acérrimo crítico e A. J. Ayer (1910-89) o seu divulgador britânico. PG

possibilidade/impossibilidade

Uma possibilidade é algo que pode ser verdade, ainda que não seja realmente verdade. Por exemplo, Sócrates chamava-se "Sócrates", mas poderia ter-se chamado "Diógenes". Evidentemente, tudo o que é realmente verdade é uma possibilidade. E todas as necessidades são também possibilidades: por exemplo, se admitirmos que é necessário que 2 + 2 = 4, então é possível que 2 + 2 = 4 (ver necessidade/contingência). Uma impossibilidade é algo que não pode ser verdade, além de não ser realmente verdade. Por exemplo, não só não é verdade que 2 + 2 = 5, como é impossível que 2 + 2 = 5. Evidentemente, nada do que é realmente verdade é impossível. A lógica modal estuda a argumentação que envolve os conceitos de possibilidade e necessidade. Apesar de os exemplos dados se referirem à matemática, há filósofos que defendem que nem todas as necessidades são de carácter matemático ou lógico (como "A água é H2O" ou "Sócrates era um ser humano"). DM

post hoc ergo propter hoc

Expressão latina que significa literalmente "depois disso, logo por causa disso". Ver falácia post hoc.

post hoc, falácia

Ver falácia post hoc.

postulado

Uma proposição que se admite como verdadeira sem qualquer prova. Desejavelmente, os postulados são auto-evidentes ou pelo menos amplamente aceitáveis. DM

pragmática

A pragmática analisa os aspectos do significado que dependem do modo como a linguagem é usada e das intenções comunicativas dos falantes — distinguindo-se por isso da semântica, que se ocupa tipicamente do significado literal das expressões linguísticas. Por outras palavras, a pragmática estuda os significados implícitos que a elocução (ou a escrita) de uma frase ou sequência de frases pode ser capaz de comunicar. Por exemplo, eu posso responder a uma pergunta sobre o paradeiro do Rui dizendo "Está um carro amarelo em frente da casa da Ana", o que permite ao meu interlocutor inferir que o Rui está em casa da Ana (e que tem um carro amarelo). As regras de funcionamento deste mecanismo de comunicação de significados implícitos são, desde que ele foi descoberto pelo filósofo H.P. Grice (1913-88), objecto privilegiado do estudo da pragmática. Mais geralmente, a disciplina estuda os princípios que regem a produção de sequências linguísticas, consideradas como acções (ou actos de fala). J.L. Austin (1911-60) e J. Searle (n. 1932) formularam teorias gerais dos actos de fala. Os tópicos de que a pragmática se ocupa foram originalmente discutidos em filosofia da linguagem, e esta disciplina tem com a pragmática o mesmo tipo de problemas de fronteira que tem com a semântica. Ver também asserção. PS

pragmatismo

Corrente filosófica segundo a qual a eficácia na aplicação prática fornece o critério para determinar a verdade das proposições (ver proposição). Assim, uma proposição é verdadeira se for, na prática, vantajoso sustentá-la, ou, na versão de William James (1842-1910), se funcionar. Isto significa que o conhecimento é um instrumento para organizar a experiência e os conceitos (ver conceito) são hábitos de crença ou regras de acção. Os pragmatistas pensam que a experiência humana é um processo histórico, contingente (ver necessário/contingente) e evolutivo e consideram que muitos dos problemas filosóficos têm origem em dualismos (como teoria-prática e realidade-aparência), que derivam de teorias do conhecimento que concebem as crenças como representações (ver representação) e, por isso, chamaram a atenção para a continuidade entre experiência e natureza, e para a reciprocidade entre teoria e prática, entre conhecimento e acção e entre factos e valores (ver valor). O pragmatismo começou com a adopção por Charles S. Peirce (1839-1914), por volta de 1870, da descrição de uma crença como um hábito de acção em vez de uma representação da realidade, e entre os pragmatistas clássicos contam-se também William James e John Dewey (1859—1952). Para Peirce, o significado de uma proposição é determinado pelas suas consequências experimentais observáveis, que permitem estabelecer padrões objectivos (ver objectividade/subjectividade) de verdade. Para James, ao contrário, é a ideia de eficácia e de sucesso das pessoas individuais que fornece o padrão de apreciação de uma proposição. Dewey, por seu lado, vê a investigação como um processo cujos procedimentos e normas têm de ser avaliados e revistos à luz da experiência subsequente. Esta revisão é, no entanto, um processo social e comunitário, feito com base nos valores das pessoas vulgares. Assim, desde o início que existem duas tendências no pragmatismo, uma objectivista, associada à obra de Peirce e outra, subjectivista, mais próxima das posições de James. Actualmente, a influência do pragmatismo faz-se sentir na obra de filósofos americanos contemporâneos como W. V. Quine, Donald Davidson (1917-2003), Hilary Putnam (n. 1926) e Richard Rorty (n. 1931). AN

James, William, O Pragmatismo (Lisboa: INCM, 1997).

prática

Termo que significa "acção" ou "actividade" e que foi introduzido por Aristóteles para, por oposição a theoria (teoria) e poiêsis (arte), referir as acções (ver acção) que têm origem numa escolha deliberada e pertencem à esfera da vida ética e da política. O termo foi usado por Marx e pelos marxistas posteriores (Gramsci, Lukács e Sartre) para afirmar a primazia da actividade humana concreta, consciente e livre, capaz de transformar a natureza, a sociedade e o homem, sobre a teoria. Na linguagem comum, a prática é frequentemente entendida em oposição a teoria. Ver alienação, teoria. AN

prática, razão

Ver razão prática.

práxis

Ver prática.

predicado

Uma palavra (ou conjunto de palavras) que exprime uma propriedade ou uma relação. Por exemplo, o predicado "é alto" exprime a propriedade de ser alto. Os predicados podem ser relacionais ou não relacionais. Um predicado é relacional quando relaciona pelos menos dois particulares. Por exemplo, o predicado "é filho de" na frase "O João é filho de Miguel", relaciona o João com o Miguel. CT

premissa

Uma afirmação usada num argumento para sustentar uma conclusão. Por exemplo, a premissa do argumento "O aborto não é permissível porque a vida é sagrada" é a afirmação "A vida é sagrada". Ver entimema. DM

pré-socráticos

O termo refere-se aos filósofos que surgiram antes de Sócrates, sendo que muitos deles procuravam compreender a origem, a constituição e a natureza do mundo físico, tendo apresentado as primeiras teorias cosmológicas. Os pré-socráticos mais importantes foram Tales de Mileto, Anaximandro e Anaxímenes (da escola jónia de meados do séc. VI a. C.), Pitágoras de Samos (c. 429-347 a. C.), Heraclito de Éfeso (c. 560-475 a. C.), Empédocles de Agrigento (c. 493-c. 433 a. C.), os eleatas Parménides (n. c. 515 a. C.) e Zenão (n. c. 490 a. C.), os atomistas Demócrito (460-370 a. C.) e Leucipo (c. 450 a. C.) e ainda Anaxágoras de Clazómenas (c. 499- 427 a. C.). AA

prima facie

Expressão latina que significa "à primeira vista". Em ética, distinguem-se os deveres prima facie dos deveres absolutos. Dizer, como Kant, que temos o dever absoluto de não mentir é pensar que mentir é sempre errado. Dizer que não mentir é um dever prima facie implica reconhecer que, embora à partida seja errado mentir, mentir é a melhor opção ética em certas circunstâncias excepcionais. PG

princípio

As ideias mais gerais e elementares nas quais se procura basear qualquer investigação, conduta, sistema teórico, etc. Em filosofia os princípios abundam em todas as áreas. Há o princípio do terceiro excluído em lógica, o princípio do duplo efeito em ética, o princípio da verificação em filosofia da linguagem, o princípio da perfeição em metafísica, etc. Princípios esses que nem sempre são aceites por todos os filósofos, estando frequentemente associados a determinadas doutrinas filosóficas. AA

princípio do terceiro excluído

Chama-se "princípio do terceiro excluído" à ideia de que, para qualquer afirmação P, é verdade que P ou não P. Ou seja: o princípio declara que não há uma terceira possibilidade, entre P e não P, seja qual for a afirmação. Por exemplo: relativamente à afirmação "Sócrates é alto", só há estas duas alternativas: "Sócrates é alto" ou "Sócrates não é alto". Quando uma lógica aceita o princípio do terceiro excluído significa que qualquer afirmação com a forma "P ou não P" será uma verdade lógica. Algumas lógicas modernas recusam este princípio, como é o caso da lógica intuicionista. Não se deve confundir o terceiro excluído com o princípio da bivalência: este último é a ideia de que só há dois valores de verdade e que todas as proposições têm um dos dois, e só um dos dois. A relação precisa entre o terceiro excluído e a bivalência é objecto de disputa filosófica. Não se deve também pensar que o terceiro excluído é de alguma maneira um axioma da lógica clássica; na verdade, é um resultado, um ponto de chegada, e não um ponto de partida. DM

problema da demarcação

Ver critério de demarcação.

problema da indução

Problema de responder ao argumento de Hume cuja conclusão é que os argumentos indutivos (ver indução), por muito fortes que pareçam, não têm o menor fundamento. Hume sugere que os argumentos indutivos pressupõem um princípio da uniformidade da natureza. Por exemplo, depois de observarmos muitos pedaços de metal que dilataram ao serem aquecidos, inferimos indutivamente que todos os pedaços de metal dilatam quando são aquecidos ou que o próximo pedaço de metal que aquecermos também dilatará, mas uma inferência como esta só é razoável sob o suposto de que a natureza tem uma forte estabilidade. No entanto, que razões temos para acreditar que a natureza é uniforme? Podemos dizer o seguinte: temos observado que a natureza é uniforme; logo, a natureza em geral é uniforme e continuará a ser uniforme. O problema é que esta justificação para o princípio da uniformidade da natureza consiste ela própria num argumento indutivo e, portanto, pressupõe também a ideia de que natureza é uniforme. Assim, torna-se impossível evitar uma regressão infinita quando tentamos justificar a indução e, deste modo, parece que as inferências indutivas não têm justificação racional. Popper aceitou o cepticismo de Hume a este respeito, mas procurou preservar a racionalidade da ciência defendendo que esta só recorre à dedução. PG

problema do gosto

Há quem defenda que os juízos estéticos, como "isto é belo", são apenas juízos de gosto, sendo portanto subjectivos. Ora, isso levanta o seguinte problema: como é possível manter o carácter subjectivo desse tipo de juízos estéticos sem cair no cepticismo? Se tais juízos são subjectivos, então as pessoas não estão a falar da mesma coisa quando afirmam "isto é belo", pelo que não é possível discutir o assunto. Mas é contraditório dizer que a estética é a discussão daquilo que não se pode discutir, pelo que o subjectivismo estético tem de responder a esta objecção. AA

problema do mal

O problema de reconciliar a existência do Deus teísta com o mal existente no mundo. A formulação clássica do problema do mal é da autoria de Epicuro (341-270 a. C.): "Quer Ele [Deus] impedir o mal, mas não pode? Então é impotente. Pode, mas não quer? Então é malévolo. Será que pode e quer? Donde vem então o mal?". Há várias formas de responder a este problema. Uma das respostas mais populares entre os filósofos consiste em defender que se não existisse mal no mundo, os seres humanos nunca poderiam exibir aquilo que de mais valioso têm, nomeadamente, as suas qualidades morais não existiriam Madres Teresas nem heróis. Outra das respostas consiste em defender que se não existisse mal, não poderíamos ter livre-arbítrio. E é melhor um mundo com mal mas no qual temos livre-arbítrio do que um mundo sem mal mas sem livre arbítrio. CT

problema filosófico

A filosofia, tal como a ciência, procura resolver problemas que nos afectam a todos. A diferença está no tipo de problemas que a filosofia enfrenta. A filosofia trata de problemas conceptuais, para os quais não dispomos de meios empíricos de prova, acerca dos fundamentos da ciência, da religião, da arte, e até do nosso dia-a-dia. Por exemplo, problemas como o de saber o que é a justiça, o que é o conhecimento, qual o mecanismo através do qual os nomes referem as coisas que referem, etc. Muitas vezes tomam-se como filosóficos problemas que claramente o não são. Por exemplo, saber se a religião contribui para a coesão das sociedades não é um problema filosófico, mas sociológico. Ver também filosofia. AA

proposição

O pensamento literalmente expresso por uma frase declarativa. Diferentes frases ou afirmações podem exprimir a mesma proposição: "Lisboa é uma cidade" e "Lisbon is a city" exprimem a mesma proposição. DM

proposição categórica

Tradicionalmente, aquelas proposições da forma sujeito-predicado prefixada por um quantificador. Aristóteles distinguiu quatro tipos de proposições categóricas:

Tipo A: Universal Afirmativa: Todo o S é P; Todos os filósofos são inteligentes.
Tipo E: Universal Negativa: Nenhum S é P; Nenhum filósofo é inteligente.
Tipo I: Particular Afirmativa; Algum S é P; Alguns filósofos são inteligentes.
Tipo O: Particular Negativa; Algum S não é P; Alguns filósofos não são inteligentes.

Contudo, as proposições de tipo A e E são, na verdade condicionais quantificadas. Ver proposição hipotética, silogismo. CT

proposição hipotética

Tradicionalmente, proposições condicionais (ver condicional), como a expressa pela frase "Se Sócrates é homem, então é mortal". Ver proposição categórica, implicação. CT

propriedade

1. Uma qualidade ou característica que algo possui. Por exemplo, dizer que João é inteligente é dizer que João tem a propriedade de ser inteligente. As propriedades são expressas através de predicados não relacionais (ver predicado). As propriedades são os exemplos típicos de universais.

2. Noutro sentido, o termo "propriedade" refere o património de alguém, aquilo que pode ser adquirido ou dispensado por alguém. Num sentido mais amplo, "propriedade" pode servir para referir as posses não materiais de alguém, como a liberdade e a vida. CT

pura, razão

Ver razão pura.