Tal como os físicos, os biólogos, os músicos ou os economistas, os filósofos inventam e utilizam muitas vezes termos que não são usados na linguagem comum. Outras vezes também utilizam termos comuns, mas com um significado diferente do habitual. Isso explica muitas das dificuldades que os estudantes encontram no seu caminho. Mas a consulta de um bom dicionário pode contribuir decisivamente para impedir que a confusão e a desorientação se instalem.
O dicionário é, pois, uma espécie de pronto-socorro do estudante: sempre à mão para desfazer confusões, esclarecer dúvidas e dar rigor àquilo que se afirma. E o seu uso é provavelmente mais justificado em filosofia do que em qualquer outro domínio de conhecimentos.
A razão é simples. Enquanto as ciências e as artes se defrontam com problemas essencialmente de carácter empírico e prático, a filosofia debate-se com problemas de natureza conceptual, pois trata de compreender a própria natureza da ciência, das artes e do nosso dia-a-dia. Os problemas da filosofia abordam o que de mais básico há no nosso pensamento e no modo como vemos o mundo, impelindo-nos muitas vezes a rever ideias, conceitos e crenças que nos parecem evidentes. Daí a ideia comum de que, em filosofia, tudo é discutível.
Esta ideia, apesar de não ser inteiramente incorrecta, de modo algum implica que a todo o momento tudo tenha de ser revisto e que os conceitos filosóficos possam ser usados de qualquer maneira. O presente dicionário procura ser um instrumento para ajudar os estudantes a pensar filosoficamente, mas também para lhes facultar de forma breve, acessível e rigorosa, informação importante sobre a enorme variedade de noções, problemas, teorias e nomes que fazem da filosofia um universo vasto e fascinante.
Até aqui tem-se falado dos estudantes de filosofia e não dos leitores em geral. Não é por acaso, dado que não se trata simplesmente de um dicionário de filosofia, mas de um dicionário escolar de filosofia. E isso faz uma grande diferença; a diferença que nos permite dizer que este não é apenas mais um dicionário de filosofia. É um dicionário concebido e estruturado tendo prioritariamente em conta as características e necessidades concretas dos milhares de estudantes de filosofia do ensino secundário, os quais raramente encontram à sua disposição o apoio que realmente precisam e procuram.
Concretizando melhor, o que acaba de ser dito traduz-se no seguinte:
As entradas do dicionário são de quatro tipos. As mais extensas são sobre as disciplinas filosóficas tradicionais (epistemologia, ética, estética, lógica, metafísica, filosofia da religião, filosofia política, etc.), sendo atribuído um maior destaque às que são estudadas no ensino secundário. No final destas entradas incluem-se sugestões bibliográficas de carácter introdutório. Há entradas de tamanho médio, dedicadas às posições filosóficas substanciais, ou seja, àquelas posições que nem todos os filósofos defendem e que têm sido objecto de disputa (empirismo, racionalismo, idealismo, realismo, positivismo, cepticismo, utilitarismo, etc.). As entradas mais curtas, que são a maioria, são reservadas para as noções de base da filosofia, isto é, para aquelas noções que geralmente os filósofos aceitam como neutrais (abstracto, concreto, argumento, falácia, paradoxo, indução, percepção, teísmo, etc.) e que, portanto, se distinguem das anteriores. Há ainda entradas sobre filósofos, com maior destaque para os que se consideram mais importantes, incluindo filósofos contemporâneos. Alguns destes não costumam ser referidos nos manuais escolares, mas é importante mostrar aos estudantes que a filosofia não é coisa do passado e que, ao contrário do que às vezes se pensa, está cada vez mais viva e estimulante.
A um dicionário com dimensões reduzidas como este, podem ser sempre apontadas omissões. Procurou-se, contudo, evitar omissões escandalosas e imperdoáveis, sobretudo na perspectiva do estudante de filosofia do secundário. Haverá outras entradas que alguns leitores acharão dispensáveis. Mas também não se pretende que o dicionário se esgote e se submeta completamente ao plano de estudos dos estudantes do secundário. Um dicionário deve ir além disso, de modo a corresponder às necessidades dos estudantes mais interessados, assim como às dos leitores em geral e dos próprios professores. Apesar de ser prioritariamente dirigido aos estudantes do ensino secundário, é nossa convicção que os estudantes dos primeiros anos dos cursos de filosofia terão muito a ganhar com a sua consulta, além de poder ser consultado com proveito por qualquer pessoa interessada em filosofia.
É importante referir que, apesar de as entradas estarem assinadas, todas foram amplamente discutidas e revistas por todos os outros autores. Pode, por isso, dizer-se que este dicionário é fruto de um verdadeiro trabalho de equipa, levado a cabo no âmbito das actividades do Centro para o Ensino da Filosofia da Sociedade Portuguesa de Filosofia (CEF-SPF). Só por razões de carácter prático o nome de todos não surge na capa, embora aí seja mencionado o apoio do CEF-SPF. A maior parte dos autores deste dicionário são também membros do CEF-SPF e o dicionário procura ser mais um dos instrumentos que esse centro de estudos promove com o intuito de contribuir para o incremento da qualidade do ensino da filosofia. A maior parte dos autores tem também uma larga experiência de docência no ensino secundário e os que não leccionam nesse nível têm tido, no seio do CEF-SPF, um contacto estreito com os problemas relativos ao ensino da filosofia no secundário.
Uma palavra final para todas as pessoas que com as suas críticas, sugestões, correcções e apoio deram um grande contributo para a realização deste dicionário, bem como para a melhoria da sua qualidade. Entre eles merece um agradecimento especial João Branquinho, que desde o início apoiou a ideia, dispondo de algum do seu precioso tempo para acompanhar cientificamente os trabalhos. Também António Zilhão, enquanto Presidente da SPF, merece uma referência pelo reconhecimento da importância do dicionário. Adriana Silva Graça e Sofia Miguens leram muitas das entradas à procura de infelicidades e imprecisões científicas. Margarida Ferro, Pedro Madeira, Maria José Vidal e Miguel Amen discutiram algumas das entradas e contribuíram, com as suas objecções e sugestões, para melhorar o resultado final. Os erros e imprecisões que subsistem são, contudo, da responsabilidade dos autores. Para terminar, é devido também um agradecimento a Baltazar Torres pela cedência da sugestiva imagem da capa, que é a reprodução do quadro intitulado Factory, de 2000-2001, adquirido para a colecção de arte contemporânea da RAR, e que contribui para tornar o presente dicionário também um objecto esteticamente mais interessante.